quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Quando o silêncio pesa mais que o salário: por que às vezes sair é um ato de justiça interna

 

Escrito em 16 de abril de 2025.


"Prefiro sair."

"Mas para onde você vai?"

"Ainda não sei. Mas pelo menos irei dormir tranquilo."

A tirinha acima, com traços simples e diálogo direto, carrega um dos maiores dilemas enfrentados por profissionais das mais diversas áreas — inclusive do mundo jurídico: o peso emocional e psicológico de permanecer em ambientes tóxicos, estruturas abusivas ou vínculos que minam o sentido da existência profissional.

Num país onde a cultura do “aguentar calado” ainda é normalizada, admitir que não se está bem é visto como fraqueza. Pedir demissão, mesmo sem ter outro destino em vista, chega a ser taxado como loucura. Mas não seria loucura maior permanecer onde se perde a própria identidade, dia após dia?

⚖️ A dignidade da pessoa humana vai além do salário

Nos bancos das universidades de Direito, aprendemos que a dignidade da pessoa humana é um dos pilares da Constituição Federal (art. 1º, III). No entanto, a aplicação prática desse princípio muitas vezes se resume a discursos institucionais ou peças processuais padronizadas. Pouco se fala sobre o quanto esse princípio deveria nortear também nossas decisões pessoais — principalmente no que diz respeito ao ambiente de trabalho.

Quando um profissional, seja servidor público, advogado, técnico, assistente ou juiz, precisa escolher entre manter o emprego e preservar a saúde mental, estamos diante de um colapso ético-social. A produtividade jamais deveria ser conquistada ao custo da paz interior.

💼 Assédio moral e o silêncio institucional

O assédio moral no ambiente de trabalho é silencioso, insidioso e, muitas vezes, institucionalizado. A pressão velada, a cobrança desproporcional, a exclusão deliberada, o desrespeito sistemático — tudo isso contribui para um cenário no qual o indivíduo se sente vulnerável, paralisado e desamparado.

Mesmo com o avanço da legislação trabalhista e da jurisprudência que reconhece a indenização por dano moral decorrente de assédio, a cultura do medo e da subserviência ainda prevalece em muitos setores. O receio de represálias, o estigma da “fragilidade emocional” e a precariedade do mercado fazem com que muitos se submetam a uma rotina de angústia normalizada.

Como diria o velho filósofo, “demore o tempo que for para escolher o que queres fazer, o mundo tentará persuadi-lo do contrário…”. E outro ainda advertiria: “a angústia te acompanhará.”

Mas, nesse contexto, a angústia maior talvez seja a de trair a si mesmo. Por isso, a decisão de sair, mesmo sem um novo caminho traçado, é também um ato de resistência e de justiça interior.

🧠 Liberdade profissional e saúde mental: um chamado à coragem

A Constituição garante o direito ao trabalho digno, mas quem garante a liberdade profissional? Quem cuida da alma do profissional que, todos os dias, silencia sua dor para entregar metas, prazos, relatórios e produtividade?

A verdade é que a saúde mental no trabalho ainda é um tabu, especialmente entre profissionais do Direito, historicamente formados sob a égide da austeridade, da contenção emocional e do sacrifício.

Mas esse modelo está falido.

Não há coerência em defender direitos humanos no papel e aceitar abusos cotidianos na prática. Não faz sentido promover justiça para terceiros enquanto se vive em profunda injustiça emocional consigo mesmo.

✊ Sair pode ser mais digno que resistir

Escolher sair nem sempre é fraqueza — pode ser autoconhecimento, sobrevivência e até lucidez.

Resiliência não é aceitar tudo. Não é aguentar o inaceitável. Resiliência é saber o seu limite e ter a coragem de defendê-lo. A decisão de sair, muitas vezes, é o início da reconstrução de uma vida mais coerente com seus valores, seus afetos e sua dignidade.

Dormir tranquilo passa a ser mais importante do que manter o crachá, a reputação corporativa ou os elogios vazios de quem nunca calçou seus sapatos.

🔍 Já aconteceu algo similar em sua jornada?

Você já precisou sair de um ambiente, projeto ou emprego sem ter um “plano B”, apenas para recuperar sua paz?

Você já enfrentou o dilema entre continuar por obrigação ou sair por sanidade?

Compartilhe. Seu relato pode ser o alívio ou o encorajamento que outro colega precisa para tomar a mesma decisão.

Afinal, a vida profissional precisa de mais coragem, empatia e humanidade.

João Bezerra Neto - Advogado tributarista

 


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