Escrito em 16 de abril de 2025.
"Prefiro sair."
"Mas para onde você vai?"
"Ainda não sei. Mas pelo menos irei dormir
tranquilo."
A tirinha acima, com traços simples e diálogo direto,
carrega um dos maiores dilemas enfrentados por profissionais das mais diversas
áreas — inclusive do mundo jurídico: o peso emocional e psicológico
de permanecer em ambientes tóxicos, estruturas abusivas ou vínculos
que minam o sentido da existência profissional.
Num país onde a cultura do “aguentar calado” ainda é
normalizada, admitir que não se está bem é visto como fraqueza. Pedir
demissão, mesmo sem ter outro destino em vista, chega a ser taxado como
loucura. Mas não seria loucura maior permanecer onde se perde a própria
identidade, dia após dia?
⚖️ A dignidade da pessoa humana vai além do salário
Nos bancos das universidades de Direito, aprendemos que
a dignidade da pessoa humana é um dos pilares da Constituição Federal (art. 1º,
III). No entanto, a aplicação prática desse princípio muitas vezes se resume a
discursos institucionais ou peças processuais padronizadas. Pouco se fala sobre
o quanto esse princípio deveria nortear também nossas decisões pessoais —
principalmente no que diz respeito ao ambiente de trabalho.
Quando um profissional, seja servidor público, advogado,
técnico, assistente ou juiz, precisa escolher entre manter o emprego e
preservar a saúde mental, estamos diante de um colapso ético-social.
A produtividade jamais deveria ser conquistada ao custo da paz interior.
💼 Assédio moral e o
silêncio institucional
O assédio moral no ambiente de trabalho é
silencioso, insidioso e, muitas vezes, institucionalizado. A pressão velada, a
cobrança desproporcional, a exclusão deliberada, o desrespeito sistemático —
tudo isso contribui para um cenário no qual o indivíduo se sente vulnerável,
paralisado e desamparado.
Mesmo com o avanço da legislação trabalhista e da
jurisprudência que reconhece a indenização por dano moral decorrente de
assédio, a cultura do medo e da subserviência ainda prevalece em muitos
setores. O receio de represálias, o estigma da “fragilidade emocional” e a
precariedade do mercado fazem com que muitos se submetam a uma rotina de angústia
normalizada.
Como diria o velho filósofo, “demore o tempo que for
para escolher o que queres fazer, o mundo tentará persuadi-lo do contrário…”.
E outro ainda advertiria: “a angústia te acompanhará.”
Mas, nesse contexto, a angústia maior talvez seja a de trair
a si mesmo. Por isso, a decisão de sair, mesmo sem um novo caminho
traçado, é também um ato de resistência e de justiça interior.
🧠 Liberdade profissional
e saúde mental: um chamado à coragem
A Constituição garante o direito
ao trabalho digno, mas quem garante a liberdade
profissional? Quem cuida da alma do profissional que, todos os dias,
silencia sua dor para entregar metas, prazos, relatórios e produtividade?
A verdade é que a saúde mental no trabalho ainda é
um tabu, especialmente entre profissionais do Direito, historicamente
formados sob a égide da austeridade, da contenção emocional e do sacrifício.
Mas esse modelo está falido.
Não há coerência em defender direitos humanos no papel e
aceitar abusos cotidianos na prática. Não faz sentido promover justiça para
terceiros enquanto se vive em profunda injustiça emocional consigo
mesmo.
✊ Sair pode ser mais digno que
resistir
Escolher sair nem sempre é fraqueza — pode ser autoconhecimento,
sobrevivência e até lucidez.
Resiliência não é aceitar tudo. Não é aguentar o
inaceitável. Resiliência é saber o seu limite e ter a coragem de defendê-lo. A
decisão de sair, muitas vezes, é o início da reconstrução de uma vida mais
coerente com seus valores, seus afetos e sua dignidade.
Dormir tranquilo passa a ser mais importante do
que manter o crachá, a reputação corporativa ou os elogios vazios
de quem nunca calçou seus sapatos.
🔍 Já aconteceu algo
similar em sua jornada?
Você já precisou sair de um ambiente, projeto ou emprego sem
ter um “plano B”, apenas para recuperar sua paz?
Você já enfrentou o dilema entre continuar por
obrigação ou sair por sanidade?
Compartilhe. Seu relato pode ser o alívio ou o encorajamento
que outro colega precisa para tomar a mesma decisão.
Afinal, a vida profissional precisa de mais coragem,
empatia e humanidade.
João Bezerra Neto - Advogado tributarista
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